após ter viajado pela imaginação
que afinal não tinha deixado o reflexo do espelho
por onde andara nessa jornada de fantasia apagara-se nesse instante
como quem desliga a luz no quarto na hora de ir dormir
recordou a irmandade que se sente num funeral
quando o caixão desce enfim para o buraco e um primeiro punhado de terra esgravata a madeira do tampo
não há como não sentir o que todos sentem quando se caminha em direção à saída do cemitério
haverá um dia em que seremos nós a ficar para trás
lá estava ela de novo a insistir num devaneio
o espelho parecia prendê-la e o atraso que se ia acumulando pesava-lhe ainda mais na alma
talvez já não saísse
faltava-lhe alento
aqui perante o reflexo e um marasmo cada vez mais espesso
acabava por sentir-se bem
ou pelo menos não tão mal como provavelmente se iria sentir se fosse onde tinha de ir
decisões
elas implicam sempre mais do que a escolha
escolher acaba por ser fácil
são as consequências que atrapalham
acabou por ir
se calhar até chegaria a horas
e se calhar até tudo iria correr bem
sempre sentiu um certo otimismo tímido depois de horas de desconfiança
como um último ânimo desesperado
uma última prece aos deuses nos quais nunca acreditou de verdade
no caminho olhou a pele das mãos e seguiu os relevos das veias até desaparecerem nos punhos
entrando pelo corpo dentro como raízes antigas nas árvores que existem desde que temos memória
não a foi a última a chegar
alguns esperavam-na já e outros foram-se juntando
depois
quando estavam todos ou o horário o pediu
o silêncio foi sendo destilado por entre uma tosse aqui e ali até à mudez final que pareceu durar uma eternidade
chegara a hora dela
a campa dizia o nome e duas datas logo acima do epitáfio
viveu pelo reflexo de um espelho mágico
